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Esporte está se tornando uma das áreas mais fascinantes da medicina esportiva moderna.

Gabriel Medina[caption id="attachment_3563825" align="alignnone" width="696"] [media-credit id=20898 align="alignnone" width="696"][/media-credit] Gabriel Medina amarradão após uma sessão de surfe.[/caption] Desde a infância, recordo-me de meus pais dizendo que precisavam de um banho de mar para se acalmarem. Hoje percebo que, ao mergulhar a cabeça na água salgada, os problemas da terra firme parecem se amenizar. Aquele sentimento de “lavar a alma” é algo que todo surfista conhece intimamente. Sempre soubemos que o surfe nos faz bem; no entanto, o que antes era apenas uma percepção está se tornando uma das áreas mais fascinantes da medicina esportiva moderna. Recentemente, ao acompanhar as notícias do mundo do surfe, deparei-me com o crescimento exponencial de iniciativas como a Waves for Change e a Roxy Davis Foundation, que utilizam o surfe como ferramenta terapêutica para jovens em situação de vulnerabilidade e adultos lidando com ansiedade e depressão. O que despertou minha atenção não foi apenas a nobreza dessas ações, mas o robusto corpo científico que se consolidou ao redor delas. A ciência finalmente está conseguindo mensurar o que nós, surfistas, sempre sentimos. Como médico ortopedista e do esporte, dedico grande parte do meu tempo ao tratamento de lesões físicas — em ombros, joelhos e coluna. No entanto, a saúde de um atleta, seja ele profissional ou amador, não se resume à biomecânica. A saúde mental é o alicerce sobre o qual todo o restante se sustenta. É precisamente nesse contexto que a “Terapia do Surfe” (Surf Therapy) tem ganhado destaque em publicações científicas de relevância nos últimos meses. Um estudo relevante, publicado por pesquisadores da Universidade de Exeter, realizou uma síntese realista sobre como, por que e para quem a terapia do surfe funciona. Os resultados são impressionantes. O aprendizado de uma habilidade complexa e desafiadora como o surfe edifica um senso de resiliência e autoconfiança que se reflete em outras esferas da vida. Ademais, a imersão em um ambiente natural dinâmico — o oceano — demanda um estado de atenção plena (mindfulness) praticamente intrínseco. É impossível pensar em preocupações cotidianas quando uma série de dois metros avança em sua direção. Outra investigação recente utilizou tecnologia vestível (wearables) para mensurar os benefícios fisiológicos e psicológicos do surfe em veteranos militares que enfrentam o transtorno de estresse pós-traumático. Os dados mostraram uma regulação significativa do sistema nervoso autônomo, com aumento da variabilidade da frequência cardíaca e redução dos níveis de cortisol (o hormônio do estresse). O surfe, literalmente, reconfigura nossa neuroquímica, promovendo a liberação de endorfinas e dopamina de forma significativamente mais potente do que exercícios realizados em ambientes fechados. Diante de tantas evidências, a perspectiva sobre o nosso esporte deve evoluir. O surfe não é apenas uma atividade física intensa que exige preparo muscular e articular; é uma intervenção terapêutica poderosa. Em um mundo cada vez mais ansioso, hiperconectado e estressado, a prescrição médica do futuro pode muito bem incluir “duas horas de surfe, três vezes por semana”. Minha busca constante no surfe, e o que recomendo aos meus pacientes, é que busquemos surfar com saúde, não apenas para manter o condicionamento físico, mas para preservar a sanidade mental. Ao remar para o outside na próxima vez, recorde-se de que não está apenas praticando um esporte; está cuidando de sua saúde mental da forma mais pura e eficiente que a natureza pode proporcionar. Eu mesmo, me “auto mediquei”, escrevendo esse texto durante a minha semana terapêutica em El Salvador, surfando e me divertindo com os amigos de Juquehy. Se dizem que água com açúcar acalma, a ciência demonstra que a água salgada do mar é o verdadeiro agente terapêutico. Referências 1. Knowles, N., Ladwa, A., Price, L., et al. (2026). Explaining how, why, for whom and when surf therapy improves mental health and wellbeing in adults: a realist synthesis. Advances in Mental Health. 2. Ossie, J. E., et al. (2025). Wave of change: assessing surf therapy’s psychological and physiological benefits for military veterans using wearable technology. Frontiers in Psychology. 3. Carneiro, L., Clemente, F. M., Claudino, J. G., et al. (2024). Surf therapy for people with mental health disorders: a systematic review of randomized and non-randomized controlled trials. BMC Complementary Medicine and Therapies.

source https://www.waves.com.br/colunas/surfe-e-medicina/surfe-e-medicina-surfe-como-melhor-remedio/

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