Reflexão de Bruno Castello da Costa aborda como saber adquirido no mar pode ganhar linguagem e ser transmitido sem perder sua essência cultural.
[caption id="attachment_3662756" align="alignnone" width="2786"] [media-credit id=22504 align="alignnone" width="2786"][/media-credit] A boa leitura da onda permite desafios em Pipeline, North Shore da ilha de Oahu, Havaí.[/caption] Quando surge uma conversa sobre ensino de surfe, alguns surfistas experientes podem sentir um certo estranhamento. Afinal, o que alguém poderia ensinar sobre algo que praticam há décadas? Essa reação é compreensível. O surfe é uma atividade profundamente baseada em experiência direta. Cada onda surfada, cada queda, cada sessão no mar constrói um tipo de conhecimento que dificilmente pode ser substituído por explicações externas. A questão não é ensinar o surfista natural a surfar. A questão é como transmitir aquilo que ele já sabe. Conhecimento que vive no corpo Grande parte do conhecimento do surfista natural é tácito. Ele não aparece como teoria, método ou sequência de instruções. Ele vive no corpo, no olhar, na paciência da espera, na forma como alguém se posiciona no outside ou decide deixar uma onda passar. Esse conhecimento se manifesta em gestos aparentemente simples: A relação com o risco A resposta à intimidação A resiliência A escolha da onda O tempo de entrada A leitura da série A forma de cair A maneira de voltar para o outside Mas, acima de tudo, ele se manifesta em algo mais difícil de nomear: uma relação específica com o mar. Surfistas naturais não aprendem apenas movimentos. Eles aprendem a perceber. O desafio da transmissão Nos textos anteriores desta série, propus que o surfe pode ser compreendido como cultura antes de técnica, e que processos de iniciação e observação desempenham um papel central na formação de um surfista. Essa perspectiva revela um ponto importante. O surfista natural muitas vezes possui o conhecimento, mas esse conhecimento raramente foi organizado em linguagem. Ele foi aprendido da maneira como o surfe sempre ensinou: observando, tentando, errando, refinando ao longo do tempo. Quando chega o momento de transmitir esse saber, surge um desafio silencioso. Não porque o conhecimento não exista — mas porque ele ainda não encontrou plenamente uma forma de ser dito. Uma questão de linguagem Hoje, grande parte do ensino do surfe se apoia em uma linguagem que privilegia instruções diretas, comandos externos e resultados imediatos. Essa linguagem organiza o processo de aprendizagem de maneira clara e eficiente para determinados objetivos. Mas o surfe natural se desenvolve por outros caminhos. Ele emerge de processos mais lentos: observação prolongada, tentativa pessoal, leitura progressiva do ambiente, adaptação constante ao comportamento do mar. Quando o conhecimento do surfista natural tenta se expressar através de uma linguagem que não nasceu desses processos, algo curioso acontece. O conhecimento existe. O desejo de aprender também. Mas entre os dois surge uma dificuldade de tradução. O aprendiz orgânico Dentro de todos nós existe um aprendiz orgânico adormecido. Um tipo de aprendiz que aprende observando, experimentando, tentando novamente, refinando sua própria percepção. Esse aprendiz não responde bem a comandos constantes ou explicações antecipadas. Ele responde a referências vivas. Responde ao que vê no mar. Durante muito tempo, o próprio ecossistema do surfe funcionou dessa forma. Surfistas mais novos observavam os mais experientes, absorvendo comportamentos, ritmos e decisões que raramente eram explicados verbalmente. Era assim que o conhecimento circulava. Não como instrução, mas como presença cultural. Dar linguagem ao que já existe Talvez o papel do SURFE NATURAL não seja criar algo novo. Talvez seja algo mais simples — e ao mesmo tempo mais delicado: dar linguagem ao conhecimento que o surfista natural já carrega. Não para substituir a experiência, mas para torná-la transmissível. Quando esse conhecimento encontra uma linguagem que respeita sua natureza — baseada em observação, maturação e relação com o mar — algo interessante acontece. O aprendiz orgânico começa a despertar. E o processo de formação de surfistas volta a se alinhar com aquilo que sempre sustentou o surfe como cultura viva. O surfista natural talvez nunca tenha pensado em si mesmo como educador. Mas é possível que ele já carregue aquilo que nenhum método consegue fabricar: uma relação viva com o mar. Quando essa relação encontra uma linguagem capaz de transmiti-la, algo novo se torna possível. Não apenas aprender a surfar. Mas começar a se formar como surfista. Sobre o Autor - Bruno Castello da Costa é engenheiro, guarda-vidas, educador de surfe e autor, com mais de vinte e dois anos de experiência direta na zona de arrebentação. Seu trabalho se concentra na observação de surfistas naturais, em processos de aprendizagem ecológicos e na relação entre iniciação, cultura e segurança no surfe. É fundador do SURFE NATURAL e do RIO SURF SURVIVE, além de autor de livros sobre educação e consciência no surfe. Sua pesquisa emerge da vivência contínua no mar, e não de estruturas institucionais ou competitivas.source https://www.waves.com.br/noticias/surfista-natural-a-linguagem-transformadora/
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