Pular para o conteúdo principal

O fenômeno da ressurgência

A ressurgência observada no litoral brasileiro é atribuída a causas e efeitos regionais.Vivi Cavaler
A ressurgência observada no litoral brasileiro é atribuída a causas e efeitos regionais.

Quando pensamos em surfe no verão, uma das primeiras coisas que vêm à mente é fazer aquela queda livre da roupa de borracha molhada e pesada. Mas essa realidade não é uma constante em algumas das melhores regiões de surfe do Brasil.

Isso se deve a um fenômeno de águas costeiras chamado ressurgência que, como o próprio nome já diz, trata-se do ressurgimento de uma camada de água extremamente fria na superfície do oceano após um longo período de permanência no fundo do mar.

É justamente em função desse longo período em que essa camada de água permanece em zonas profundas, afastadas da área de superfície (onde as águas são constantemente aquecidas pela radiação solar) que acaba se resfriando, apresentando, em algumas situações, uma variação de temperatura de até 10°C a menos.

Em algumas regiões de Santa Catarina, água escura é sinal de frio e roupa de borracha. A água de fundo, por vezes, fica escura devido ao contato com a lama presente em alguns pontos do assoalho oceânico adjacente à costa.

Mas por que isso ocorre? O que faz a água gelada subir à superfície e tornar aquele surfe de verão parecer uma experiência glacial? As causas e a interação entre elas são um pouco complexas, mas tentarei simplificar para facilitar o entendimento.

A ressurgência ocorre devido a uma combinação de fatores: a rotação da Terra e o regime de ventos – mais especificamente os ventos entre a direção Leste e Norte, que são mais intensos e predominantes em algumas partes da costa Sul e Sudeste do Brasil entre a primavera e o verão.

Figura explica o movimento das águas mais frias e mais aquecidas.

Entretanto, essa dinâmica não ocorre em toda costa brasileira, ao contrário, para a ressurgência ocorrer, além da rotação terrestre e do regime de ventos já mencionados, é necessário outro fator: uma geografia específica da linha de costa, onde ocorrem as “esquinas” no litoral brasileiro.

São regiões em que a orientação da linha de costa se modifica em praticamente 90°, permitindo que os ventos empurrem as águas superficiais, aquecidas pelo sol, para áreas afastadas da costa. Dessa maneira, quem entra em cena e sobe à superfície são as águas mais profundas e consequentemente bem mais frias, evidenciando o fenômeno da ressurgência.

Então onde são essas regiões? Observando o mapa do litoral brasileiro fica fácil de localizar: trata-se do litoral centro-sul de Santa Catarina e o litoral centro-leste do Rio de Janeiro, principalmente a Região dos Lagos, onde um município não coincidentemente ganhou o nome de Cabo Frio.

As áreas assinaladas configuram as “esquinas” do litoral brasileiro, regiões típicas de ressurgência.Adaptação / Google Earth
As áreas assinaladas configuram as “esquinas” do litoral brasileiro, regiões típicas de ressurgência.
Área sob efeito da ressurgência durante o verão junto ao litoral do Rio de Janeiro: observe a diferença de cores, onde as cores amarelo avermelhadas representam temperatura acima dos 23°C e as áreas em azul temperatura abaixo dos 20°C.Adaptação / Fishtracks.com
Área sob efeito da ressurgência durante o verão junto ao litoral do Rio de Janeiro: observe a diferença de cores, onde as cores amarelo avermelhadas representam temperatura acima dos 23°C e as áreas em azul temperatura abaixo dos 20°C.
Área de ressurgência no litoral de Santa Catarina.Adaptação / Google Earth
Área de ressurgência no litoral de Santa Catarina.
Figura explicativa: combinação entre o regime de ventos predominantes e a posição da costa.Adaptação / Geografando-1k.blogspot.com
Figura explicativa: combinação entre o regime de ventos predominantes e a posição da costa.
Área de ressurgência no litoral peruano e chileno: as setas vermelhas representam a ação dos ventos alísios, predominantes durante o ano todo. A área circulada em amarelo determina a ampla zona oceânica com predomínio de águas frias.Adaptação / Google Earth
Área de ressurgência no litoral peruano e chileno: as setas vermelhas representam a ação dos ventos alísios, predominantes durante o ano todo. A área circulada em amarelo determina a ampla zona oceânica com predomínio de águas frias.

Cabe destacar que a ressurgência observada no litoral brasileiro é atribuída a causas e efeitos regionais. Existe outro tipo de ressurgência com fatores e efeitos de ordem global, entretanto, algumas das causas têm a mesma origem: regime de ventos em relação à posição da linha de costa.

Exemplos conhecidos são: o litoral do Chile e Peru, a costa norte do México e o sul da Califórnia no Oceano Pacífico.

O post O fenômeno da ressurgência apareceu primeiro em Waves.



source https://www.waves.com.br/colunas/palanque-movel/o-fenomeno-da-ressurgencia/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Albee Layer estreia Less Than Easy, novo filme sobre inverno em Maui. Jaws quebra com força máxima em cinco dias históricos de swell gigante.

https://www.youtube.com/watch?v=uYCXrHNvEEI O havaiano Albee Layer acaba de lançar Less Than Easy, filme que retrata com intensidade e emoção a última temporada de ondas grandes em Maui. Mais do que uma simples coletânea de sessões em Jaws, o projeto é uma carta de amor à ilha que Layer chama de lar há 33 anos e ao tipo de surfe que beira o limite humano. Nas palavras do próprio Albee, a ideia foi olhar para as ondas familiares com uma nova perspectiva: “Nos esforçamos ao máximo por enxergar as ondas com ideias frescas e por nos entregar de corpo e alma aos picos clássicos da ilha”, conta. E não faltaram momentos marcantes, entre eles uma sequência de cinco dias em Jaws que ele descreve como a melhor que já testemunhou, coroada pelo maior swell de sua vida. O filme também marca um momento pessoal importante: Albee acabou de tirar sua licença de piloto. Voar por cima de Maui, segundo ele, ampliou ainda mais sua conexão com a ilha e renovou seu olhar sobre a paisagem e os picos que já co...

Carlos Burle estreia Bravamente, novo podcast de histórias inspiradoras. Série reúne entrevistas que mostram como esporte transforma vidas.

https://youtu.be/-s5QiotecjY O surfista e campeão mundial de ondas grandes Carlos Burle estreia nesta quarta-feira (25) o podcast Bravamente, série documental em áudio e vídeo que revela como o esporte tem sido, para muitos, mais do que uma prática física — uma verdadeira ponte para o equilíbrio emocional, propósito e oportunidades no mercado profissional. Com 12 episódios quinzenais e duração entre 15 e 40 minutos, o programa será lançado no YouTube (@bravamente_oficial) e no Spotify (Brava•Mente). A cada edição, Burle conduz conversas autênticas com personagens que têm o esporte como parte essencial da vida, em narrativas que misturam emoção, disciplina, superação e reconexão com o corpo e a mente. Entre os entrevistados da temporada estão nomes como Brenda Moura, promessa do surfe e skate brasileiro; Morongo, fundador da Mormaii; Walter Chicharro, ex-presidente da Câmara de Nazaré, em Portugal; e Trennon Paynter, treinador da equipe olímpica canadense de esqui. Também participam exe...

Coluna Museu do Surfe, de Diniz Iozzi e Gabriel Pierin, apresenta história de Luiz Sala, conhecido como DJ Feio, que uniu surfe e som eletrônico.

[gallery td_select_gallery_slide="slide" ids="3654828,3654823,3654825,3654824,3654831,3654830,3654827,3654829,3654826"] A origem do povo brasileiro é marcada pela confluência de etnias e culturas dos povos originários, europeus, africanos e asiáticos, que se misturaram ao longo dos séculos para formar a identidade tropical, que o antropólogo Darcy Ribeiro chamou de novos romanos, uma nação destinada a um papel importante no futuro da humanidade. Um exemplo dessa miscigenação entre povos está na família Sala. Luiz Guilherme é bisneto materno de indígenas com portugueses e espanhóis, e de imigrantes italianos por parte de pai. Filho do paulistano e cinegrafista da extinta TV Tupi, Guilherme Sala, e da vicentina Nilza Fernandes, Luiz nasceu em São Paulo no primeiro dia do mês de junho de 1957. Foi em São Vicente (SP), o primeiro núcleo de colonização europeia no Brasil, que Luiz cresceu. A intimidade com o mar começou muito cedo. Luiz acompanhava parte da família puxan...